• 22/02/2017

  • Exclusivo NOIZE BRASIL

Mergulhe no fog tropical de Nina Miranda

Por: Fabiano Post

Se você nasceu em meados dos anos 80, ou em qualquer ponto temporal em diante, ainda não é um tiozinho de carteirinha. Mas calma, teu dia chegará. Seja como for, você talvez, nada, ou quase nada tenha ouvido falar sobre Nina Miranda ou da Smoke City. Então, a hora é agora! Nina é multitalentosa e prolixa às pencas. Destrinchar seus mais de 20 anos de carreira não foi tarefa fácil, diante da quantidade de infos, extras e algumas muitas viagens e divagações poéticas.

E foi exatamente desse jeito, tudo junto agora, descontraído, meio bagunçado, a flor da pele, cantarolando The Smiths com um acento abrasileirado, enquanto trampava como design em uma empresa londrina na década de 90, ou manufaturando nas horas vagas altos mix-tapes regados por algumas de suas infuências como: Benjor, Emilio Santiago, Elza Soares, Jackson do Pandeiro, Ed Lincoln e outros gigantes nacionais – para distribuir para amigos gringos – que a cantora, compositora e produtora, anglo-brasileira, Nina Miranda se tornou a rainha, mãe, deusa – adjetivismos a parte – da trip-bossa a versão caliente do trip-hop, e forjou suas bases musicais multiculturais que fariam explodir em altíssima rotação nas paradas britânicas de 97, o hitAÇO, meio bicho estranho, meio bossa, meio acid jazz, meio samba e outras especiarias, “Underwater Love”, da Smoke City, sua banda formada com o multi-instrumentista alemão-inglês-holandês e acima de tudo amante da música brasileira, Chris Franck e o DJ londrino Mark Brown.

Em um período que a Inglaterra ainda sofria a ressaca do racismo dos conservadores anos da Thatcher, o exotismo e sonhos brasileiros eram o tempero perfeito para amaciar os costumes, o ambiente rígido, autocrítico, e o mix de insegurança e arrogância britânica. Um pouco antes do big-bang de “Underwater Love”, e posterior criação da Smoke, Nina foi assediada pelos caras do Massive Attack, que na época estavam atrás de uma vocalista. Lisonjeada porém decidida, declinou ao convite do Massive que precisava de uma vocal integral e sem compromissos. “O Smoke City era o meu bebê, tão minha praia, minha mistura musical dos sonhos, que nada ia me tirar dali, mesmo uma banda já tão bem sucedida”, confidencia Nina.

 

Foto: Paul Louis Archer

Miranda é um híbrido cultural de seu próprio meio. Esse é o segredo de sua inspiração criativa. Nascida no Rio, cedo, aos oito anos, foi morar em Londres. Pai brasileiro, o carioca e artista plástico Luiz Áquila, e mãe inglesa, a britânica, também artista plástica, Liz Thompson Miranda. Nina diz “que há leveza em não ser de um lugar específico, sem as regras únicas de um país, ter que escolher e rejeitar”. “O ambiente londrino fértil e repleto de contrastes, pessoas do mundo inteiro; push and pull, altos e baixos, seres sensíveis, com um mundo internalizado, acaba por criar novas misturas e tendências, punk, jungle e drum n’ bass, trip hop, grime”, completa Miranda. Sobre o Brasil Nina diz “que o costume de expressar livremente a felicidade, a tristeza, o carinho e o amor, torna tudo muito mais suave, criativo e aprazível. Aprendi com os músicos brasileiro como é importante ter um tempo para o bate-papo, tomar uma vitamina e sanduíche na lanchonete, sem pressa, antes de começar o ‘trabalho’, aí não parece tanto trabalho, tira a ansiedade, vira continuação do bate-papo, de ser a gente, que nos expressa musicalmente”, diz N.M! “Continuo a trabalhar assim em Londres, especialmente com ensaios e gravações em casa, aqui a gente pode comer e beber a vontade, um acaba se deitando no tapete, se não dormiu na noite anterior, enquanto o outro grava, me sinto com os Novos Baianos, aqui no meu estúdio”, conta Nina.

Underwater Love, Somke City & outras transas

Nina só pensava no Brasil, enquanto labutava na empresa de design. Um amigo DJ falou que tinha uma musica que fez especificamente para ela, depois de ouvi-la cantar no Hope & Achor – pub onde tocaram Sex Pistols, The Cure, The Specials, The Police, Madness e outros tantos. Era a base de “Underwater Love”. Nina levou a fita para casa, colocou no gravador, e em outro gravador colocou uma fita cassete virgem, colocou a primeira para tocar – é meu camarada, dava um trampo danado antes das facilidades digitais – a segunda para gravar e quando ouviu aquela musica, dramática, misteriosa, aquática, sensual, começou a cantar “this must be underwater love”. Nina disse que “nunca saiu uma musica tão fácil”. “A primeira audição já rolou quase toda a história… Como eu estava nadando nela pela primeira vez e gravei minhas sensações, acho que isso passa a quem ouvi-la. Descobrindo juntos”, explana Nina.

 

“Underwater Love” foi o carro chefe do primeiro álbum da Smoke City, Flying Away. Recebeu calorosas críticas da imprensa britânica e internacional, especializada; teve seu sucesso amplificado pela exposição como trilha sonora de um comercial de jeans dirigido por Michel Gondry, estava full time na tv-MTV e cinema. A música bombou na terra da Rainha em 1997! Isso acarretou uma porrada de convites para festivais e gigs. “Viajamos pelo mundo, especialmente Europa tocando em grande festivais sempre como headliners e chamando membros de outras bandas para dá uma canja percussiva no final”, conta Miranda.

 

Quando um jornalista da Melody Maker – a mais antiga publicação britânica sobre música, encerrou as atividades em 2000 – disse que Nina deveria usar a coroa da nova rainha da música pop, e que suas letras revelam uma grande poeta, nesse momento Nina sabia que o reconhecimento chegaria. Ela sabia que seria um sucesso. “Sou muito otimista e sabia que o que tínhamos era ouro, aventura, rebeldia , um gozo internacional, diferente e ao mesmo tempo reverente aos melhores momentos da música”.

 

Em 2001 o segundo álbum Heroes of Nature, não teve a mesma recepção. Para muitos fãs, o registro passou quase desapercebido, também foi o último trabalho da Smoke City, que em 2002 resolve romper com a gravadora.

 

Então, cada qual foi para o seu lado, sem dizer adeus. Mas as parcerias entre os ex-membros continuaram. Nina se juntou ao produtor Dennis Wheatley e formou o Shrift. A nova empreitada chegou a ser comparada com Portishead pela presença maciça de elementos eletrônicos e pela suavidade dos vocais de Nina.

 

O Shtrift foi um sabático na transição da Smoke City para a nova banda que Nina viria a formar com Chris Franck: a Zeep, em 2007, “uma versão mais orgânica da Smoke City”, conta Nina. Nessa transição Nina e Franck se casaram e tiveram o primeiro de seus dois filhos. Segundo a artista isso ficou impresso nas letras da banda. “As letras refletiam o nosso estado de casal, o romance, paixão, e também o dia dia mais maduro, e a energia de ter crianças em volta.”
O Zeep foi bem recebido pela critica, em seus teve dois álbuns gravados, o homônimo Zeep de 2007, e People and Things de 2010.

 

O que se seguiu nos anos vindouros, após o término da Zeep, foi uma série de parcerias de peso e altíssimo quilate, nomes como, Nitin Sawhney, Seu Jorge, Kassin e Domenico Lancelotti, Bebel Gilberto, o duo eletrônico Basement Jaxx, Nação Zumbi, Chico César, o guitarrista português <strong>António Chainho, Daniel Jobim, Berna Cepas, Moreno Veloso, Danilo Caymmi, Phil Dawson, Rodrigo Amarante, Chiara Banfi, Mauro Bergman, Armando Marçal, Plínio Profeta etc e tals.

Disco solo

O primeiro trampo solo de Nina tem previsão de lançamento para final de maio desse ano pela californiana Six Degrees Records, de São Francisco. Miranda diz que “é muito bom ser dona do próprio som”. O rebento atende pelo nome – mais do que adequado – de Freedom of Movement. O filhão ficou elástico, muitas músicas foram produzidas, um montão delas. Quinze faixas foram devidamente selecionadas para comporem o registro. “Gostei tanto da aventura que não queria parar. É música demais para um único registro. Entrava em um transe pessoal e podia ficar horas elaborando arranjos até tudo ficar perfeito”, conta a artista. “Aqui queria deixar as pessoas viajarem , coloca-las no umbigo da atmosfera do som, sentir a lama do mangue, a ecstasy nos olhos dos ravers em Manchester. Muitas viagens não só pelo mundo, ou universo; multiversos!”, Nina sobre “Freedom of Movement”.

Sem mais milongas, e com exclusividade, a Noize lança a faixa “The Cage, gravada primeiro no Studio Audio Rebel Botafogo com Kassin e Domenico. Depois no Vanguard Studio, em Londres. É um rock and roll ouro, uma transa tropical entre Nine Inch Nails e Bauhaus – opinião minha – tem musculatura jazzística que lá pelas tantas se desdobra em iguarias MPBsistas. Nina, por sua vez, arrebenta nos vocais e saca sua poderosa arma, uma assinatura: aliar poeticamente as línguas de Camões e Shakspeare. O fôlego do peso da batera dita o ritmo, até se diluir em “água” como na magia percussionista do eterno bruxão Naná Vasconcelos.

 

Desde já, o álbum pode ser considerado a maturidade artística e uma compilação de tudo o que mais agrada Nina em termos sonoros-plásticos-artísticos. Tá tudo lá, o salseiro todo, MPB, samba, bossa, jazz, tri-hop, eletro-pop, tem até o tal de rock and roll. Definitivamente tem mais metais e está mais pesado. É um disco poderoso. Ficamos no aguardo.

Para quem quiser conferir de perto Nina Miranda no palco, em estado de graça, ela dará um rasante em duas gigs no Brasil, ambas no Rio de Janeiro; dia 23/02 se apresenta no baile de carnaval da Oquestra Imperial, no Circo Voador às 23:00; e dia 25/02 se apresenta, duplamente, com a banda Do Amor, no Rio Open Tennis Tournament, no Jockey Club, às 19:30 e 22:00.

Por hora, só me resta agradecer por essa maravilha criativa, fog tropical, “bagunçada”, que é a cabeça de Nina. Bravo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30. 08. 2016

REVISTA TRACKER PORTUGAL:

 

“Esperar por Nina Miranda vai valer a pena”. 50 minutos para lá de sábado, era esta a crença no Titanic Sur Mer antes do tardio concerto dos Kanoa com a cantora dos memoráveis Smoke City. Crença de um público maduro, mas convictamente noctívago, do qual eram mais os cotas que os jovens sub-30. Uns para recuar à juventude de vinte anos atrás, os segundos para descobrir novos sons Em ambos os grupos, a espera valeu mesmo a pena por um concerto que viria a superar as expectativas.

Juventude é enquanto cada pessoa a sentir

 

De facto, talvez quase todos fossem jovens para descobrir novos sons, já que todos sabiam que a veterana Nina Miranda vinha interpretar composições dos jovens Gonçalo Sarmento e Alex Louza, e a formação do colectivo Kanoa sugeria que também os clássicos dos Smoke City seriam cobertos com originalidade. Outra curiosidade que pairava no ar assentava em qual seria o ‘pulmão’ da brasileira 18 anos após o grande concerto na Expo 98 Lisboa. Uma terceira era quem era a alegre jovem de olhos em bico que subitamente apareceu em cena e esse mistério deixou de o ser prontamente: era Rachel que, vinda de Singapura, fez o teatral papel de compere, apresentando os artistas que iriam actuar.

 

Os Kanoa subiram finalmente a um palco cheio de instrumentos – kora e percussões além do trio guitarra, bateria e baixo -, e muito a preceito tocaram “Mago do Vento”, a introdução instrumental que rapidamente animou a plateia. Muito groove midtempo que transitou para um samba que prenunciou a vistosa entrada de Nina Miranda em cena, saltando vestida em extravagante estilo new wave. Estavam lançados os dados para um belo momento! Muito sorridente, a brasileira saudou a plateia e as suas primeiras palavras foram sobre o Nordeste e Pedro Álvares Cabral, para recordar a lusofonia que une as margens do Atlântico, num movimentado início mais declamado que cantado, no qual retratou o boiadeiro que monta os “Silken Horse”.

 

Interpretados dois temas dos virtuosos Kanoa, Nina confirmou a importância das batidas naquele espectáculo apresentando o “mestre Sané” nas percussões e depois Márcio Pinto, que deixou a bateria para uns segundos no indígena berimbau, enquanto Alex passou da kora para o baixo eléctrico. Interactiva, dialogou com o público sobre capoeira (que ela admitiu jogar mal) e deixou a sua melosa voz deambular pelo fluído axé da “Capoeira” da Nina, antes da primeira recordação do Smoke City: “Mr. Gorgeous (and Miss Curvaceous)” em versão bailarico tropical, quando o perfume da sala estava já adequadamente psicotrópico. Nina partilhou o micro com a fila da frente para o público cantar com ela e a seguir improvisou uma spoken word, durante a qual a compere Rachel foi bailar no palco, completando um instante tão party people que pareceu recriação tropicalista da Madchester.

Nina Miranda tinha já evidenciado juventude e simpatia quando decidiu reforçar o charme exibindo bom humor: “O dono deste bar não gosta de brasileiros…”, gracejou enquanto saia do palco. Então, Naty Fred deixou o laptop, foi à frente do palco, pegou na guitarra, anunciou “Acho que ensaiei esta canção toda a minha vida.” e começou a interpretar “Menina Azul”, clássico dos Ena Pá 2000 interrompido pela entrada do anfitrião Manuel João Vieira no palco, logicamente aparatosa. Balbuciou: “Não sei se toco um bolero moçambicano ou português. Ou um fado japonês…”, colhendo imediatas gargalhadas, mas atirou-se a um fado-marcha, “Belchior”, que alegou ser de 1953, talvez para rimar com “japonês”. Nina reentrou para cantar uns muito discretos coros e para cantar com o anfitrião “Norwegian Wood” dos The Beatles, apresentada surrealisticamente por ele e da qual a brasileira troçou dizendo que lhe “dá sono”.

Do clímax esperado ao verdadeiro clímax no fim

Ainda com o anfitrião Manuel João no palco que encarnou o Candidato Vieira para uma breve rábula sobre eleições, ambos declamaram a letra sobre o axé da música. Uma verdadeira performance teatral, na qual simularam uma contabilidade que nunca bate certo como os resultados eleitorais em que sempre vencem os corruptos de que as pessoas dizem estar fartas… E interactiva, porque Nina voltou a incitar o público a cantar com os artistas.

 

 

 

E em medley chegou-se ao instante mais esperado da noite, aquele em que se deu o clássico “Underwater Love” dos Smoke City. Manuel João saiu de cena durante a intro instrumental e Nina perguntou quem tinha calor enquanto distribuia pela plateia borrifadores que se encontravam depositados no palco desde o início do concerto. Foi o tempo para o público ficar debaixo de água e sentir o amor vindo do palco, onde já estava a exótica Rachel a dançar com a diva. Logicamente, todo o salão cantou o clássico e, para a versão se distinguir mais do original, o MC Hael reapareceu para improvisar um rap que fez Nina exclamar “Lisbon is full of talents!”, antes de cantar o final e pôr o público a cantar ao desafio com ela o coro “Ai! Uh!”

Entre canções, Nina Miranda ainda falou em inglês, esquecendo que estava “em casa”, mas entre tanta simpatia, foi ‘castigada’ com risos. Sentou-se no palco embalada pela lenta introdução de “Feminist Man” e acolheu no colo a cabeça do deitado Hael, de quem disse ser “a madrinha musical”. Na plateia, o ambiente estava tão animado que até deu para um homem se declarar de joelhos a uma jovem – insólito digno do burlesco Maxime, cujo espírito o nome Titanic não afundou. A seguir, com a Kanoa nas águas quase paradas da “Shalom Road” onde atestaram as suas boas noções dos tempos, foi mais fácil apreciar a projecção vídeo produzida por Sara Braga, muitas pessoas relaxaram ondulando-se vagarosamente e então a “madrinha’ Nina teve uns minutos para repor o oxigénio que o final do concerto ia exigir. Mas foram curtos os minutos antes da batucada de introdução de “Watching Clouds Relax”, um afrobeat alucinado com um pé no Brasil que Nina pediu a Hael para cantar consigo. Nina apresenta todos os artistas e saí do palco, deixando a Kanoa em jam session transbordando grooveacompanhada pelas palmas na plateia.

“Chamem de volta a Nina!” ordenou eufóricamente Gonçalo; e porque a resposta mais assertiva foi a brasileira em tom de troça “Eles não gostaram…”, o guitarrista concluiu “Vocês estão cansados!” Não era verdade, e embora já passasse das 2 da manhã no encore, muita gente acompanhou Nina no canto da versão de “Flying Away” (nome do álbum de sucesso dos Smoke City), um reggae trilingue cantado em inglês, português e no glamo(u)roso francês. E quando Nina improvisou uma ligeira coreografia no final, a plateia gritou e aplaudiu toda a satisfação que sentia. Aquele sim, foi o início do verdadeiro clímax emocional!

 

O público notívago, em êxtase, convenceu os artistas a voltarem para “fazer mais uma” e de onde alguém exclamou “Até às seis da manhã!!”, ao que Nina retorquiu um desafiante “Vamos dançar até às seis da manhã?”. Rachel deve ter entendido a palavra “dançar” porque voltou ao palco para gingar o reggae de “Joga Bossa”, a versão dos Smoke City da famosa “Águas de Março” que os Kanoa gradualmente converteram numa batucada cada vez mais intensa. Nina bem ‘ordenou’ a cada um deles que parasse de tocar, mas a festa era já irreversível e, se não os podes vencer, junta-te a eles: Nina e Rachel adornaram-se de máscaras, desceram do palco, atravessaram a plateia dançando e, ainda cantando, juntaram-se às DJs Lady G Brown e Selecta Alice que, já com os Kanoa também na cabine dos DJs, elevaram o volume e accionaram suavemente a ‘inauguração’ da festa que durou até de manhã.

Música afro-europeia ou afro-americana, foi sem dúvida uma grandiosa noite afro-lusitana!

Date: 30/08/2016Author: 

allweneedisnoise

PORTUGAL

Já com o mês de Agosto a terminar e quase a fazer o “reboot” de Setembro, o Titanic Sur Mer recebeu com “pompa e circunstância”, Nina Miranda, a voz brasileira do trio musical Smoke City.

O grupo lançou dois álbuns durante os 5 anos que estiveram no activo, antes de acabarem em 2002. O disco de estreia “Flying Away” de 1997 foi o mais bem sucedido da banda inglesa.

 

Apesar da curta carreira, o trio britânico compôs o tema “Underwater Love”, sendo o single mais reconhecido pelo grande público. Os Smoke City apareceram durante o auge do movimento trip hop, emergido no meio da década de 1990 em Inglaterra, que têm bandas de referências como Portishead, Massive Attack e Lamb. Comparando com os outros grupos, os Smoke City distanciavam-se ao apresentarem uma fusão de sonoridades, que davam destaque às influências dos ritmos brasileiros.

Volvidos 14 anos após o cessar de actividades dos Smoke City, Nina Miranda esteve sempre ligada ao meio musical, participando em outros projectos no circuito alternativo. Juntamente com Chris Franck, colega de banda nos Smoke City, Miranda formou os Zeep, banda que prosseguiu a veia experimental, editando dois discos no final da década passada.

Com um clima de uma noite de verão, junto à zona ribeirinha do Cais do Sodré, o concerto estava agendado para começar às 23:30. Mas, por motivos não explicados, houve uma alteração de alinhamento o que obrigou os sets das DJ’s Lady G Brown e Selecta Alice a anteciparem a actuação.

Nina Miranda em palco com os Kanoa.

Hora e meia depois e com uma casa bem composta, sobem ao palco os Kanoa, banda que fez acompanhar Nina Miranda. Com oito músicos em palco, estavam acompanhados de uma guitarra, um baixo, um sintetizador, uma mesa de mistura e ainda uma “frota” de percussão, que para além da bateria, incluía djembés, congas entre outros instrumentos.

Depois de uma apresentação meio atabalhoada por parte de dois membros da organização, Nina Miranda aparece finalmente ao palco, com um “top” e uma saia cinzenta com padrões axadrezados.

A sonoridade ouvida é drasticamente diferente, comparando com o ritmos cadenciados do trip hop dos Smoke City. A dinâmica em palco é fruto das influências de cada músico, dando um sabor cosmopolita à actuação.

Apesar do número de músicos em palco, a vocalista brasileira é a “mestre de cerimónias”. Ao longo de uma hora de concerto, Nina Miranda mostra que ainda não perdeu os seus dotes vocais, apesar do afastamento dos holofotes mediáticos da música.

A noite brindou de um momento completamente inesperado, protagonizado pela subida dos três degraus na frente de palco de Manuel João Vieira. O homem por detrás das letras do grupo Ena Pá 2000 e também o “eterno” candidato à presidência da república cantou, juntamente com a estrela da noite, “Norwegian Wood” dos Beatles resultando num momento inédito, que dificilmente se repetirá num futuro próximo.

Cumplicidade em palco entre Nina Miranda e Manuel João Vieira

Nina Miranda, com a força do hábito, interpela o público em inglês ao agradecer as palmas. Apesar de ter sido apenas um caso pontual, a vocalista desabafa que é bom falar na língua nativa e que a passagem por Portugal faz com que se sinta em casa, confessa ao esboçar um sorriso para a plateia repleta de pessoas das mais variadas partes do globo.

Houve inevitávelmente nostalgia pelos Smoke City em “Mr. Gorgeous (And Miss Curvaceous)”, com direito a um coro bem afinado no refrão, ou a melancólica “Flying Away” já a encerrar a festa de Verão proporcionada por Miranda. Mas foi com”Underwater Love” (com direito a esguichadelas de água), que, de facto consumou a passagem de Nina Miranda, pelo espaço de música na noite lisboeta.

O calor do Brasil fez-se sentir pela sala fora e mesmo com a época balnear a despedir-se de Portugal. Nina Miranda proporcionou uma autêntica festa de Verão. Durante o concerto, a vocalista revelou que esteve em Lisboa a ensaiar para o concerto no Cais do Sodré e aproveitou para “matar saudades” de Portugal.

Que este concerto seja um porta de entrada para decidir futuros projectos. As provas foram dadas, por isso cabe de alinhar pormenores para navegar em “mares nunca dantes navegados”.

Texto e fotos: João Pardal

RONALDO EVANGELISTA
Folha de São Paulo 2002

SHRIFT "Lost in A Moment"


Há doze anos, em qualquer rádio ou rede de TV do mundo, em especial da Europa, você ouvia uma música de gosto brasileiro, levada relax no violão, batida eletrônica discreta, cuíca sampleada e uma voz lânguida cantando coisas como "Esse amor com paixão, ai que coisa". 

Era o Smoke City, banda inglesa que tinha à frente a cantora brasileira Nina Miranda e que fez enorme sucesso em 1997 com a música "Underwater Love". Além de ser uma música deliciosa e de ter saído de um ótimo disco cheio de outras boas canções,"Underwater Love", nas paradas, foi uma espécie de prévia do que aconteceria alguns anos depois com o estouro de Bebel Gilberto e sua bossa lounge e as inúmeras cópias que surgiram em seguida.
Para o Smoke City, seguiu-se um segundo álbum e cada um partiu para seu projeto. 

Miranda participou de gravações ao lado de amigos. Miranda está de volta em novo projeto, Shrift, com um primeiro álbum, "Lost in a Moment", que acaba de ganhar edição nacional. Ao lado de um novo parceiro musical, Dennis Wheatley, a cantora fez um disco que lembra o Smoke City, mas segue linha própria. 

"O Smoke City era mais brincalhão, o Shrift é mais introspectivo", explica a cantora à Folha. "Esse é um disco frágil, sensível, doce, feito sem pensar em quem iria ouvi-lo. 

Nós o gravamos como um hobby, como uma terapia, não importava se ia acontecer algo. Mas fomos mostrando, as pessoas foram gostando, e acabamos em uma gravadora que entendeu e não nos pressionou."


Com um clima visual cheio de colagens de sons e letras em inglês e português que parecem contar uma história, a cantora lembra que seu novo projeto nasceu com a idéia de criar algo que soasse como um sonho ou um conto de fadas. "São como conversas gravadas. Mas conversas só com música, sem precisar falar. São frases inacabadas, quero que o ouvinte faça a sua conclusão. É chato ouvir uma letra toda explicada, gosto que não entendam tudo o que digo. O mundo tem tantas palavras que às vezes é bom buscar o silêncio, a paz. O Shrift é como o silêncio sem silêncio." 

 

Brasileira Nina Miranda mistura brasilidade com eletrônica no vocal da banda Shrift 

Ricardo Calazans -O Dia 2002

 

Londres está prestes a “levar uma de volta”, diz Nina Miranda, brasileira radicada na Inglaterra, voz do grupo Smoke City, atualmente “emprestada” para o Shrift. Inclassificável projeto dela e do britânico Dennis Wheatley, ‘Lost In a Moment’, o CD de estréia da dupla acaba de sair no Brasil (gravadora Six Degrees, distribuída pela Ginga P.), 

Dep ois de provocar fortes emoções em ouvintes do Reino Unido e Estados Unidos, onde também foi lançado. 

E antes que Londres sucumba diante de tanta paranóia — recentemente, foram dados mais  de 30 alertas de ameaças terroristas — o Shrift entrou em ação, ainda que  seu discurso não seja político. “As pessoas ficam meio emotivas quando ouvem. É um disco carinhoso, um sorriso”, diz Nina, no português embolado de quem já vive há 30 anos no exterior. “A Inglaterra está paranóica, porque sabe que está agindo mal. Este era um país multicultural, mais agora está indo tudo por água abaixo”, lamenta.

Sem falar de bomba s ou guerras, o Shrift se coloca contra as divisões do mundo. “Quisemos combinar as excentricidades do Brasil e da Inglaterra, o melhor de cada país numa música”, explica Nina. “As 11 faixas do disco passeiam por reference as nem sempre musicais, mas todas positivas. “Músicas de Morriconi , filmes de Fellini, crianças, sobremesas, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, amor 

Nos Estados Unidos, ‘thrift shops’ são brechós. “E nós somos um brechó de sons”, diz. No disco, as músicas combinam violinos e repiniques, reco-reco e guitarras, fitas toca das ao contrário, cellos e risos infantis. Elas seguem placidamente, e  a  voz de Nina funde português e inglês com fluência. “E hoje caminhando levo meu samba”, canta, em ‘Snow Samba’.

Nina mantém contato intenso com a música brasileira, e não perde um show de artistas do País em Londres. “Seu Jorge ensolarou esta cidade, e eu sempre fico impressionada com o Nação Zumbi. Acho que eles têm a mesma força de Jimi Hendrix”, compara. Ela sonha iniciar uma turnê do Shrift pelo Brasil. “É o lugar mais lindo do mundo. Na minha fantasia estou sempre aí”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Zeep – Keep an eye on love

 

 

Nina Miranda & Chris Frank present ZEEP

 

Eu me pergunto o que será o Zeep, apesar de que a resposta não precisa ser dada e nem deva ser, porque corro o risco de cair em rótulos, que de pouco adiantam. Até aonde pude escutar e acompanhar Zeep é muitas coisas: uma banda de dois que agregam quem há de melhor em volta, um projeto de dois com um sem número de colaborações e idéias musicais. O Zeep tem um denominador comum, isso é certo: Nina Miranda e Chris Frank. Os dois são como ímãs e filtros, catalisando sonoridades. São um casal, uma família. E isso muda tudo, pelo menos aos meus olhos e ouvidos. A relação dos dois com o que os cerca está impreesa nas canções , no seu samba novo, em sua psicodelia mansa, nos seus baiões… é o que podemos sentir nos vocais macios de Nina, e no canto falado, suave e à vontade, do senegalês Diabel Cissokho na estonteante canção “Zeep Dreams” , assim como nas risadas de amigos, que se dão de forma tão natural e “em casa” que nos sentimos um pouco perto deles também, zeepados. Sem contar no encarte recheado de fotos das gravações no Brasil e em Londres, com imagens de familiares, amigos, pinturas da mãe da Nina, num clima de “feito à mão” e “álbum de família” que só nos aproxima ainda mais do projeto Zeep.

Não por acaso, ao escutar o disco senti uma tremenda unidade, que muitos perceberão também, por isso, curiosa, pus-me a escutar os discos anteriores de Nina e Chris (em outras linguagens é complicado urdir uma obra em par, mas na música isso é possível, é um prazer, um prazer a mais para quem faz e para quem ouve). Este novo álbum é tão maduro e redondo que eu só pude desconfiar de que aquilo vinha de longe, de dentro dos seus discos anteriores e, claro, do mais verdadeiro de dentro de ambos e também da convivência estreita e amorosa que construíram. E não deu outra: Zeep vem sendo urdido há anos, é um pouquinho cada disco anterior. E não à toa, com um repertório que têm, Nina e Chris formaram este timaço de zeepistas internacionais, como os brasileiros Mauro Berman, Marcelo Janeci e Marçalzinho; o italiano Davide Giovannini; os londrinos Jason Yarde e Kenny Lynch; o senegalês Mamadou Sarr, entre outros.

Sempre me perguntam sobre o fim do Smoke City. Eu nunca tive resposta e nem sei se ela existe, por sorte da vida eu nunca perdi o contato com a Nina e pra mim ela jamais sumiu do mapa, nunca “acabou”. Situação que permitiu que eu, naturalmente, me desse conta de que se as bandas acabam ou de que se os discos têm determinado números de faixas, os músicos continuam e a música dentro deles também. Zeep é como um fruto maduro das músicas que Nina e Chris foram sonhando e vivendo esses anos.

Tanto que o Brasil do Smoke City está em Zeep, maciçamente, mas de maneira mais incorporada, se no primeiro disco todo encarte trazia imagens do Brasil, neste o cenário de Londres se encontra com o daqui, num cruzamento que permite o novo álbum ser o londrino-brasileiro mais brasileiro de todos do casal. Talvez porque Zeep traga um Brasil tropicalista, “roqueiro”, um Brasil que reiventou sua música, porque recebeu nos anos 60 e 70 Beatles na veia, cruzando-o com samba e bossa-nova: um Brasil de Mutantes, de Gil e Caetano & guitarras , de um humor vigoroso que a Nina leva consigo quando canta e compõe e que nós hoje reconhecemos como nossa marca distintiva: o Brasil do caldeirão musical, que já bebeu em Londres, portanto. Zeep traz também um Brasil sofrido e até melancólico, lembrando-me em “Sem parar” o Edu Lobo das canções engajadas da década de 60, com seu sotaque mais nordestino e “contestatório”. É a primeira vez que ouço a Nina cantar o que a incomoda em nosso país, como os contrastes sociais, isso é novo no seu repertório, é Zeep também. Perspectiva desconcertante para quem só espera festa do casal; há muito mais no disco e no mundo.

As pesquisas, as profundidades sonoras do primeiro disco do Da lata também estão em Zeep, mas muito mais suingadas e leves, menos austeras, mais descontraídos e ainda mais africanas. Então, em boa medida, podemos dizer também que o novo álbum do casal é o mais londrino-brasileiro dos álbuns africanos. Ou o álbum afro-brasileiro mais londrino que os dois já fizeram. O que importa é que ambos encontraram uma equação em Zeep na qual a leveza e o humor do canto sagaz e delicado da Nina, toda sua sensibilidade e conhecimento do Brasil se casam com a musicalidade, entre outros atributos mais, do Chris, cada um mais um, e mais dois. Amei de paixão esse disco e como canta Nina: “Fique de olho no amor”. Ele pode fazer discos incríveis.

 

2006

O que a Imprensa Disse de:

 

Nina Miranda & chris Franck present: ZEEP 

 

 

"Album Delicious - realmente fresco e divertido" Gilles Peterson. Radio1

 

“Canções  notávels pela qualidade da musicalidade. impressionante e contagiante” The Guardian

 

“Levando o melhor dos mundos antigos e fundindo-o com o novo”. Blues & Soul

 

 'Nina e Chris combinam como uma dupla explosiva! Zeep. Passado brilhante. Futuro mais brilhante! "

DJ Ritu (BBC London)

 

Voltam (de novo) em otima forma. Energia! DJ Magazine

 

 

“Um par com Instinto para melodia e o lindo vocal de Miranda proporcionam momentos de dismaiar, lindamente tocado também.” The Observer

 

 

'Super' zeep - Terça gorda de carnaval

 

Nao poderia deixar de postar Este super-clipe carnavalesco Super, da banda ZEEP, cuja vocalista e Minha prima Nina Miranda. Na onda das Primas e do nepotismo horizontal cá está online Mais UMA. O Que eu Posso Fazer si tenho tantas Mulheres Fortes nd Familia? A Nina e mega-maxi-, né? Seu Filho e Johan o loirinho da Máscara cor-se-rosa faz COMEÇO. Seu Marido e enteada also Presentes estao. Gosto do clima do Família do clipe, Crianças fantasiadas de super-Heróis, poses e Máscaras com Fundo de xita. HA carnaval acima do equador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2008 O que a Imprensa Disse de:

 

ZEEP (Nina Miranda & chris Franck) 

"People & Things" 

 

UNCUT **** Pop mundial Contagioso da dupla Anglo-Brasileira . "Há uma brincadeira irresistível para tudo aqui ... tão inteligente que chega a genialidade ".

 

 

 Revista JUNGLE DRUMS *****Um álbum de qualidade sublime. É uma produção que desafia as categorias, deixando-o muito bem aberto a interpretações. ... Investiga a condição humana com os olhos abertos e sensibilidade. Foi criado com sofisticação, inteligência e, acima de tudo, uma consciência profundamente enraizada

.... **** Rolling Stone 

 

TELEGRAPH * * * * * ... 

"cheio de sutis influências globais ... este álbum habilmente trabalhado explora uma variedade de assuntos adultos com humor e um toque de luz.

 

 Daily Mirror 

“Um reggae roots brasileiro versão de “Ghost Town” - amado por o criador do “The Specials” Jerry Dammers - é uma das muitas canções que chama a atenção sobre a mais recente entrega da Anglo-Brasileira casal Chris Franck e Nina Miranda. Crucialmente seu mundo de música / banda sonora inspirada concoctions sabe o que fazer com a atenção do ouvinte, uma vez que eles têm. ZEEP e ZEEP zeep ZEEP sim, como The Beatles quase disse.

  Álbum do mês. Mr & Mrs Smith

 

 "Ghost Town" outimpact.com ZEEP de Protuguese / Brasil Sabor é um vencedor ..

 

http://beardedmagazine.co.uk/wp/?p=1318

 

O TIMES dezembro 1, 2009 ZEEP: músicas do sábios do mundo

... De volta na canção com um novo álbum, People & Things

 

Straight No Chaser:

 Esta é uma lição de como a música pop pode e deve ser com os estimulantes certos e as influências certas.

 

Mais Now '.

 

Muitas de suas influências se encontram no Brasil, e aqui e ali bossa e samba se juntar ao fluxo cadenciado e letras Inglês dissolver em Português. Essencialmente, porém, este álbum parece enraizada no planeta ZEEP da própria home-made, e uma atitude do artesão que lhes deu a liberdade de pintar a sua própria arco-íris e criar um som muito pessoal e sofisticado. Jody Gillett

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Yes I Love You; Shrift.

Nina Miranda,

a mãe do ‘trip-bossa’ de volta ao Brasil

Ela cantou no Smoke City, grupo que deu tempero brasileiro ao som inglês

O GLOBO

POR SILVIO ESSINGER

11/01/2012 7:30

 

RIO - Em 1997, uma estranha canção, meio bossa, meio hip-hop, cantada em português, conquistou o mundo a bordo de um comercial de calças jeans — era “Underwater love”, do grupo Smoke City, cuja vocalista era a brasiliense radicada em Londres Nina Miranda. Que, mais de 14 anos depois, enfim vem ao Brasil para fazer seus dois primeiros shows solo: nos dias 19 no Studio RJ e 21 em Petrópolis, na antiga residência de seu trisavô, que hoje funciona como museu.

Com o sotaque forte de quem passou na Inglaterra boa parte da vida, Nina é filha de dois artistas plásticos: o brasileiro Luiz Áquila e a inglesa Liz Thompson-Miranda.

— Minha mãe sempre me inspirou muito, ela pintava para se lembrar do Brasil — diz a cantora, que tem em Carmen Miranda a sua primeira memória musical, lembrança da infância passada no Brasil.

— Adorava aquelas roupas, aqueles chapéus, os batons... Achava a coisa mais chique do mundo! E a música de Carmen era muito para cima, apesar de a vida dela não ter sido nada fácil — conta.

Na Inglaterra, Nina se formou na universidade e foi trabalhar com design gráfico. Nas horas vagas, cantava. Para se lembrar do Brasil. Em 1992, com o DJ Marc Brown, ela gravou, sem maiores pretensões, a faixa “Underwater love”. Algum tempo depois, quando a cantora tinha até recusado um convite para trabalhar com o famoso grupo de trip-hop Massive Attack, a música repentinamente estourou, na trilha do comercial.

— “Underwater love” tinha feito algum sucesso nos clubes e foi incluída numa coletânea, “Rebirth of the cool”, que foi parar na agência de publicidade que fazia a campanha. Ela se encaixou como mágica no filme, que tinha umas sereias nadando. Quando a música virou sucesso, eu estava no Brasil. Imediatamente, voltei para Londres — conta.

Nina e Marc se juntaram então ao violonista (e grande entusiasta de música brasileira) Chris Franck e assim o Smoke City virou uma banda e gravou um álbum, “Flying away”. O disco teve grande sucesso e abriu caminho para uma série de projetos que juntaram bossa com voz feminina, funk, hip-hip e eletrônicas. Bebel Gilberto, Thievery Corporation, Bossacucanova, Cibelle, Zuco 103, todos se beneficiaram do pioneirismo do grupo de Nina.

— Até o Smoke City, ninguém sabia em que escaninho botar esse tipo de música, que é muito brasileira, mas, ao mesmo tempo, é muito londrina. Aqui no bairro de Candem, onde moro, a gente ouvia James Brown e, em seguida, Jorge Ben — afirma Nina, que via, na época, no Brasil, uma situação bem diferente. — As pessoas estavam ligadas em Raimundos e Legião Urbana. Ninguém ouvia a música que eu amava! Eu ouvia Jorge Ben e Erasmo Carlos e sentia saudades da Inglaterra.

O que a cantora sonhava com o Smoke City era “fazer uma ponte do Brasil com o resto do mundo” — e, de certa forma, conseguiu, já que o comercial passou em vários países. Só o que ela não conseguiu fazer foi uma ponte do Brasil com o Brasil.

— Só aí é que eles não queriam botar uma música com alguém cantando em português! — indigna-se.

No meio do sucesso com o Smoke City, Nina se casou com Chris Franck. Os dois se separaram há dois anos e têm dois filhos: Johan, 9 anos, e Felix, 3. A banda durou ainda menos do que o casamento.

— Ficamos muito mimados. E a gravadora (Jive) estava indo para um lado mais comercial, com Backstreet Boys e Britney Spears. Eu gostava muito de estar nela e de fazer turnê. Mas os músicos eram muito londrinos, muito cool, não queriam dar entrevista, não queriam sorrir nas fotos... E a gente acabou pedindo para sair da gravadora — lembra.

Depois do Smoke City, Nina Miranda fez alguns outros projetos musicais, como o poético Shrift (com o produtor Dennis Wheatley) e o folk Zeep (Chris), interrompido depois da separação do casal.

— Foi como se tivéssemos vivivo quatro vidas naquele casamento, não dá para se fazer mais música quando não se está junto — explica ela.

Nos shows no Rio, Nina será acompanhada por Domenico Lancelotti (bateria, percussão e efeitos), Kassin (baixo), Daniel Jobim (voz e piano), Netto Pio (violão e voz) e Pedro Sá (guitarra). Eles darão um gostinho do disco que ela enfim está preparando, depois de anos de flerte com a cena carioca, participando de shows da Orquestra Imperial (“eu botava o Johan para dormir e ia me maquiando no táxi”, conta), mas nunca conseguia fazer nada com mais fôlego.

Além de músicas do disco com o Smoke City (“Underwater love” e “Águas de março (joga bossa mix)”), ela canta novas músicas e covers de “Mané João” (Roberto e Erasmo Carlos), “Bala com bala” (João Bosco e Aldir Blanc) e “Hit me with your rhythm stick”, de Ian Dury & The Blockheads (“que eu ouvi quando criança e achava que era a música britânica”).

Os dois shows serão bem diferentes, promete. O do Studio RJ, mais “barulhento”. O de Petrópolis, mais intimista.

— Quando eu era criança, chamavam a casa de Petrópolis de fantasmagórica, parece que o tempo parou lá. Sempre quis cantar nela, acho que será um belo contraste para o show do Studio — diz Nina, que pretende gravar em vídeo as apresentações.

Vivendo na Inglaterra de direitos autorais e de participações em eventuais projetos de música eletrônica (“minha voz é bem abrangente”, diz), a cantora sonha com a volta definitiva ao seu país.

— O Brasil tem toda a riqueza de que o mundo precisa!



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